Tradução: De Ferguson ao Rio: dois adolescentes mortos a tiro pela polícia, duas reações muito diferentes – por The Guardian

Tradução do artigo escrito por Jonathan Watts e publicada no site do The Guardian.

A morte de Michael Brown, em Ferguson, Missouri, desencadeou uma série de protestos violentos, críticas as táticas da Polícia e revolta racial. Mas no Rio, a segunda maior cidade do Brasil, Lucas Lima, de 15 anos, foi apenas outra estatística.

Um adolescente negro morto a tiros pela polícia. A família em luto. A comunidade furiosa. Então, depois de alguns dias de lágrimas e raiva, a história desaparece de vista, deixando apenas a miséria privada de uma mãe com coração partido e um irmão, em luto, buscando por justiça.

A morte a tiros do meninos de 15 anos, Lucas Lima, no Rio de Janeiro tem semelhanças com a morte de Michael Brown em Ferguson, Missouri. Mas a resposta do público e das autoridades não poderia ser mais diferente.

Lucas Lima

Lucas Lima tinha 15 anos quando foi morto a tiros pela polícia na favela do Alemão, no Rio de Janeiro, em junho desse ano. Enquanto a morte de Brown nas mãos da polícia americana provocou violentos protestos, condenação internacional e um debate nacional sobre o racismo e a violência, poucas pessoas fora da favela do Alemão ouviram sobre a morte de Lucas.

O assassinato do menino mal fez barulho na consciência pública do Brasil, em parte porque isso é muito comum. Embora o Brasil possua uma população um terço menor que a dos EUA, o país tem quase cinco vezes mais mortes por policiais. E apesar de a grande maioria das vítimas serem negros ou pardos, quase não existe um debate sobre raça.

Lima foi morto em 22 de junho a caminho de casa depois de uma partida de futebol com seus amigos. Ainda não estava escuro, mas o bairro dele costuma ser extremamente violento. Dezenas de moradores e cinco policiais foram mortos no Alemão – um bastião do Comando Vermelho, organização de tráfico de drogas – e na favela da Penha nos primeiros sete meses do ano. Um desses agentes foi baleado horas antes, deixando o policial mais nervoso e “engatilhado” que o normal.

De acordo com seu irmão Tiago, Lucas estava descendo uma das muitas ruas íngremes da favela, quando encontrou com a polícia que estava perseguindo um grupo de jovens locais. Alguns segundos depois, ele estava deitado na rua, sem vida, junto com outra jovem vítima. A polícia declarou ter encontrado uma arma entre eles. Mas não ficou claro a quem pertencia. Tiago acredita que foi colocada ali pela polícia para encobrir seu erro.

“Isso acontece o tempo todo. Todos os dias tem tiroteios e assassinatos pela polícia”, diz Tiago. “Quase todos os mortos são jovens mestiços da favela. A polícia está mal preparada. Eles não vem aqui pensando que existem pessoas boas aqui assim como há criminosos. Eles só querem fazer um trabalho e, desculpa minha linguagem, foda-se todos os outros.”

A comunidade local protestou brevemente, mas em comparação a Ferguson, a reação foi silenciada. Enquanto a morte de Brown nos EUA promoveu uma crítica ao racismo da polícia e um aparato da lei militarizada que já matou mais americanos na última década do que a guerra no Iraque, a morte de Lima foi apenas levemente coberta na mídia brasileira. Mesmo no seu bairro, muitas pessoas se sentiram impotentes para fazer qualquer coisa.

“Existem muitas injustiças, mas estamos com muito medo da polícia para enfrenta-los. É por isso que nada muda. E se você reclamar, ninguém esguta. É muito comum. As pessoas só pensam “oh, outra morte”” disse Tiago. “Meu irmão é apenas uma estatística.”

Com base em dados oficiais, acadêmicos e de ONGs, uma estimativa indica que cerca de 2.000 pessoas morem nas mãos – ou armas – de agentes da lei no Brasil a cada ano. Colocando os EUA como comparação, são cerca de 400 mortes. Em 2013, o número no Reino Unido e no Japão foi zero.

“Ferguson é uma ocorrência diária no Brasil” observou Ignacio Cano, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, cujos estudos tem  mostrado que os negros no Rio são três vezes mais propensos a serem feridos ou mortos pela polícia do que teriam a participar na população.

Esta pode ser uma estimativa conservadora. Cano afirma que o problema é muito pouco notificada pelas autoridades. “O Estado brasileiro não toma esses tiroteios policiais a sério. Se assim fosse, teríamos bons dados sobre ele.”

Fransérgio Goulart, um ativista negro, que recentemente produziu um mapa de homicídios no Rio, disse que sua pesquisa mostrou que os homicídios entre os brancos caiu nos últimos 10 anos, enquanto a taxa só aumenta na população negra e mestiça.

“Temos números que equivalem a uma guerra” diz Goulart. “A questão central nesses homicídios é racismo institucional”, disse ele. “A guerra contra as drogas é, na realidade, contra pobres e negros… O Estado está matando jovens, pobres e negros.”

Goulart ajudou a organizar uma manifestação recente “contra o genocídio do povo negro” – mas nada se comparado ao nível de participantes ou atenção da mídia aos protestos de Ferguson. Sexta-feira passada, comícios em 18 cidades aconteceram, mas o maior atraiu menos de 400 pessoas no Rio e 1.000 em São Paulo.

Porta-vozes da polícia dizem que o alto número de tiros pela polícia reflete a violência de uma sociedade em que mais pessoas são assassinadas do que em qualquer outro país do mundo e onde os oficiais muitas vezes morrem no cumprimento do dever. No Rio, que tem o maior número de mortes cometidas por policiais, existem hoje cerca de um terço dos casos de uma década atrás. A maioria são classificados como morte por “resistência a prisão”. Mas as provas em vídeo muitas vezes desmentem isso.

Em junho, uma câmera em um carro de polícia gravou dois policiais que conversavam sobre ‘acertar o alvo’, depois dois adolescentes que estavam sob sua custódia foram deixados mortos na estrada. “Dois a menos” diz um deles, “se fizéssemos isso toda semana, isso poderia começar a diminuir.”

Em março, um pedestre filmou um carro da polícia arrastando uma mulher ao longo de uma rua após os policiais a machucarem em um tiroteio e a jogarem no porta-malas do carro. Mãe de quatro filhos, Claudia da Silva Ferreira morreu logo depois no hospital.

Os protestos acontecem geralmente localizados, com curto prazo e pouco impacto. Em maio, os moradores de Manguinhos foram às ruas depois de Jonathan de Oliveira Lima, de 19 anos, foi baleado nas costas pela polícia. Em abril, manifestantes ergueram barricadas em chamas em Copacabana depois que o corpo do dançarino Rafael da Silva Pereira foi encontrado morto em uma escola durante uma operação policial na favela Pavão- Pavãozinho.

Enquanto os assassinatos, de longe, superam o número dos EUA, a reação de uma mídia dominada pelos brancos tem – em sua maior parte – muito mais resignação do que irritação.

“Se cada morte de um jovem negro pela polícia no Brasil levasse a população as ruas como em Ferguson, viveríamos em um estado de crises diárias”, opinou o colunista Luiz Fernando Vianna em um artigo na Folha de São Paulo com o título “Ferguson é aqui”.

Tradução por: Thaís Soares.

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