A Cena Underground e a Ocupação das Ruas de São Paulo

Artigo publicado no site MinhaSampa, atualmente fora do ar.

 

A cidade de São Paulo tem, no seu leque de diversidades, um mar de coletivos e pessoas dispostas a fornecer cultura, música e debates para todos os paulistanos. A maior parte desses eventos acontece nas ruas da cidade, um espaço público pouco utilizado nas últimas décadas.

Mas com o crescimento da cena underground no fim dos anos 90 e início do século 21, os coletivos começaram a ocupar mais as ruas, principalmente porque a quantidade de pessoas que buscavam esses eventos já era maior do que o suportado nas casas e estúdios.

Exemplo desse reflexo foi o SpnaRua, festival de shows e festas que aconteceu no final de semana do dia 6 de setembro do ano passado no centro da cidade. Idealizado pelo Centro Cultural da Juventude e pelo Mês da Cultura Independente, o festival levou mais de 20 mil pessoas a ocuparem as ruas do centro da cidade em um sábado a noite.

Dentro desse cenário que está se moldando, os principais agentes atuantes são os coletivos, que surgem através de um acordo entre artistas – envoltos nessa palavra: expositores, desenhistas, musicistas, cantores, pintores e mais -, de fazer com que o espaço público seja, de fato, público.

O ESTÚDIO LÂMINA E SUA ATUAÇÃO NAS OCUPAÇÕES PÚBLICAS

No número 109 da Avenida São João, na calçada do Vale do Anhangabaú – parte do centro histórico de São Paulo, fica o Estúdio Lâmina, um dos coletivo mais atuantes na cidade de São Paulo.

O prédio, construído na década de 40 hoje abriga mais de dez artistas, e funciona como uma casa galeria onde, de maneira independente, os artistas apresentam seus trabalhos. Sejam eles shows, exposições, galerias, workshops e até cortes de cabelo.

De óculos escuros mesmo dentro do estúdio, calças vermelhas e suspensório, o curador, e um dos fundadores do espaço, Luciano CortaRuas, de 39 anos, conta que o surgimento do espaço é parte da contra cultura que está se formando na cena paulistana.

“O intuito do Lâmina é provocar essa censura de que as pessoas não podem vir para o centro. É um lugar que os jovens devem frequentar, existe toda uma história pelo centro da cidade, de luta, de revolução. É aqui onde tudo acontece e nós queríamos trazer as pessoas pra cá”, explica o curador.

O primeiro grande evento que o Lâmina trouxe para as ruas do centro de São Paulo foi o Anhangabaú da FelizCidade. Em parceria com outros coletivos o festival trouxe shows, exposições, e principalmente debates articulados sobre a utilização do espaço público.

Desde o surgimento do coletivo, em novembro de 2011 o artista Denis Diosanto, 32, tem participado ativamente do grupo. Além das serigrafias, sua principal ocupação atualmente, Diosanto também faz exposições, workshops, comunicação visual e discoteca nas festas promovidas. “O que mais gosto de tocar é soul, que a galera dança bastante e não deixa a pista. Mas também gosto muito de música brasileira, tem muita coisa boa por aí” conta o DJ.

No SPnaRua Denis Diosanto participou do palco Lâmina e colocou a galera pra dançar em pleno sábado à noite no Vale do Anhangabaú.

Hoje os eventos que ocorrem no centro da cidade tem apoio da Secretaria de Cultura de São Paulo, mas nem sempre foi assim. “O SPnaRua recebeu uma verba da prefeitura que foi dividida entre os 20 coletivos, mas tudo começou com dinheiro do bolso dos artistas e crowdfunding para realizar os eventos de rua”, afirma Marina Bitten, 39, produtora e artista do Estúdio.

Dentro do prédio, as visitas são gratuitas, mas só funcionam com agendamento, e os shows costumam ser cobrados para cobrir os gastos de aluguel de equipamentos e do próprio local. O espaço também promove workshops, oficinas, exposições e shows.

“Aqui não tem vizinhos, só o bar aqui do lado, e o dono adora quando rola show, porque traz clientes para ele. Temos que aproveitar a cena que nasceu na Augusta, que depois se tornou Baixo Augusta, de ocupar as ruas e começar a ocupar os espaços públicos do centro” diz Luciano.

AS RUAS SÃO PARA DANÇAR

Com o slogan “As ruas são para dançar” o Baixo Centro é outro coletivo importante na cena underground da cidade. “O primeiro festival BaixoCentro foi feito em 2011, através de um financiamento coletivo na internet. Todos os nossos gastos foram bancados por quem participou do festival” conta Mauricio Coronado, 32, ator, ativista e colaborador do coletivo.

O espaço público é um bem de todos os paulistas, o centro é um cenário histórico pouco explorado pelos paulistanos por conta da criminalidade. Em contra partida, os coletivos culturais tem o intuito de ocupar esses espaços das mais diferentes maneiras, mas sempre partindo do pressuposto de que a arte é a melhor ferramenta para ocupação.

No ínicio de 2014, a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo iniciou um mapeamento desses coletivos que atuam para ocupar o espaço público. Atualmente já contam com mais de 500 agentes atuantes na cidade.

O plano de ocupação de espaço público pela cidadania, como foi chamado o projeto, busca implementar uma “nova agenda de direitos humanos na cidade, na qual a promoção das liberdades e o exercício da cidadania são princípios fundamentais para a desconstrução da cultura de violações”, conta Mallu Andrade, produtora cultural e coordenadora de inovação do SP Cine, agência de fomento à produção e distribuição de obras audiviosiais de São Paulo.

Os temas dessa agenda são diversos, e tem como público foco a criança e adolescente, idosos, LGBT’s, migrantes, moradores de rua e minorias sociais.

A cidade de São Paulo é um espaço público e deve ser tratada como tal. A população carece de cultura, lazer e direitos humanos. Os coletivos e a Prefeitura da cidade buscam através de seus planos e projetos resgatar a humanização dos espaços coletivos.

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